Durante dois mil anos, a “tranquila paisagem ondulada do leste de Kent” levara “uma existência agrícola e litorânea, perturbada por nada mais agitado do que uma conquista militar passageira de vez em quando!”. Mas, em 1931, como observou Patrick Abercrombie, uma nova região carbonífera parecia destinada a mudar tudo isso:
“Essa paz profunda foi agora invadida para sempre; pois, por mais que minimizemos os efeitos desagradáveis da industrialização e por melhor que sejam planejadas as novas construções, de modo a respeitar o caráter do lugar, ocorrerá uma transformação fundamental e completa, da tranquilidade do campo para o murmúrio incessante da atividade humana.”
Esse “murmúrio incessante” nunca teve exatamente o impacto previsto por Abercrombie e outros no período entre guerras, mas transformou de maneira significativa um recanto bucólico da Inglaterra rural. Embora a última mina da região carbonífera do leste de Kent tenha fechado em 1989, um legado importante permanece. Esta publicação e a próxima examinarão Aylesham, planejada por Abercrombie, então o principal urbanista britânico, como um assentamento-modelo, e avaliarão até que ponto aquelas visões urbanísticas tiveram êxito.
A existência de carvão na região — continuação das camadas intensamente exploradas no norte da França — já era suspeitada havia algum tempo, mas foi comprovada em 1882, quando se realizaram perfurações experimentais sob o penhasco Shakespeare Cliff, em Dover, para a primeira tentativa fracassada de construir o túnel sob o Canal da Mancha. A mina Shakespeare, em atividade a partir de 1896, nunca prosperou. Numa lembrança trágica do custo humano desse tipo de empreendimento, oito homens morreram numa explosão em 1897. A mina foi fechada com o início da Primeira Guerra Mundial.
Arthur Burr, o mais ambicioso empresário minerador da região, abriu uma segunda mina em Tilmanstone, a oeste de Deal, em 1906, que teve uma existência mais longa. A vila de Elvington foi desenvolvida no período entre guerras para abrigar seus trabalhadores: 230 casas de três quartos, cada uma com sala de visitas e sala de estar, além de área de serviço e banheiro, construídas pelo Tilmanstone Miners Dwellings Syndicate.
Burr deu continuidade aos investimentos com uma segunda mina, oito quilômetros a oeste, em Snowdown, em 1907. Vinte e dois homens morreram afogados quando o primeiro poço atingiu água, mas, em 1912, a mina havia registrado seu primeiro lucro. Um pequeno número de casas para mineiros foi construído nas aldeias vizinhas. Ainda assim, a mina fechou durante dois anos em meio à recessão industrial e às relações trabalhistas conturbadas que se seguiram à Primeira Guerra. Adquirida pela Pearson & Dorman Long em 1924, passou por um ambicioso programa de modernização, acompanhado dessa vez por planos idealistas de criar moradias e uma comunidade adequadas à grande força de trabalho que se pretendia contratar.
O urbanismo estava então surgindo como disciplina. No leste de Kent, combinou-se com os medos e as esperanças despertados tanto pela ameaça — degradação industrial e moradias miseráveis — quanto pela oportunidade — lucros comerciais e empregos bem remunerados — que uma nova região carbonífera parecia prometer a um país de industrialização já antiga. O fato de isso ocorrer no sudeste relativamente pouco desenvolvido, no chamado “Jardim da Inglaterra”, aumentava o sentimento generalizado de urgência e preocupação:
O planejamento da região carbonífera
“É bem possível que o carvão e o ferro de Kent representem o maior acontecimento industrial da Inglaterra neste quarto de século. Kent não é Durham, Lancashire nem Glamorgan — lugares distantes envoltos em sombras: está diante dos olhos do mundo. O carvão de Kent não é o carvão de Newcastle: está às portas de Londres.”
A primeira conferência de planejamento da nova região carbonífera ocorreu em Canterbury, em 1922. Em maio de 1923, seguiu-se uma reunião do Comitê Conjunto de Planejamento Urbano do Leste de Kent, com representantes de dezessete conselhos locais afetados direta ou indiretamente. Como prova do interesse dos poderosos e influentes por questões urbanísticas próximas de suas propriedades, o arcebispo de Canterbury convocou outra reunião no Palácio de Lambeth, no mês seguinte, com a presença, entre outros, de lorde Beauchamp, guardião dos Cinque Ports, lorde Alfred Milner e John Jacob Astor, deputado por Dover.
Neville Chamberlain, descendente de uma família de industriais de Birmingham, tinha uma origem menos aristocrática e, como deputado por Birmingham e ministro da Saúde e da Habitação de 1924 a 1929, demonstrava um interesse mais informado e prático pelo planejamento. Seu discurso de 1926, porém, expressa tanto as boas intenções quanto o impulso de proteger o próprio entorno que caracterizavam parte da inquietação com a região carbonífera do leste de Kent.
As boas intenções concentravam-se na construção de comunidades industriais melhores do que aquelas que haviam surgido no século XIX, nas palavras de Chamberlain, “sem planejamento, sem reflexão, sem previsão, apenas conforme os caprichos e as vontades de determinados indivíduos”. O objetivo era, sobretudo, criar assentamentos mineradores mais saudáveis e equilibrados:
“Vocês estão se afastando, de um lado, daquele desenvolvimento disperso... e, de outro, das aldeias erguidas junto à boca das minas, característica infeliz de muitas de nossas regiões mineradoras. Estão propondo uma série de cidades que não ficarão exatamente ao lado das minas, embora permaneçam suficientemente próximas para atendê-las; e poderão oferecer aos mineiros que nelas morarão uma vida social muito mais plena, diversificada e interessante do que qualquer coisa que poderiam esperar daquelas aldeias mineradoras do País de Gales.”
O desejo de proteger o entorno, não sem alguma razão, ressaltava que se deveria “ter o máximo cuidado para preservar o máximo possível do encanto rural do interior”, muito utilizado para excursões turísticas em ônibus, pois “é fácil imaginar como seria desastroso para esses lugares ter como pano de fundo uma Black Country desordenada e coberta de fuligem”.
Patrick Abercrombie estava em posição excepcionalmente boa para responder a essas preocupações. Fundador e secretário honorário do Conselho para a Preservação da Inglaterra Rural e professor de desenho urbano na Universidade de Liverpool, foi contratado em 1925 pelo comitê conjunto para preparar os planos do leste de Kent. Seu primeiro relatório, elaborado com John Archibald, saiu naquele mesmo ano.
O documento previa desenvolvimento industrial em larga escala: entre dezoito e vinte minas e uma população mineradora, incluindo esposas e filhos, de cerca de 180 mil pessoas. Esperava-se que siderúrgicas e atividades auxiliares trouxessem outras 278 mil pessoas à região. Além de insistir na infraestrutura necessária, Abercrombie dedicou grande atenção ao crescimento residencial.
Concluiu que o “resultado geral” de projetos executados diretamente pelas companhias “seria deplorável”. Preferia o modelo das cidades-jardim de Letchworth e Welwyn, onde sociedades de utilidade pública controlavam todos os aspectos do planejamento e asseguravam que os ganhos de valorização da terra beneficiassem a comunidade. Segundo ele, essas organizações também ofereciam melhores serviços e edifícios públicos, comércio e entretenimento. A análise não idealizava as aldeias mineradoras existentes. Abercrombie concluía que “tão importante quanto o ganho econômico de concentrar os assentamentos — e, para muitos, ainda mais importante — é a oportunidade que oferecem para uma vida social mais plena”.
O projeto de Patrick Abercrombie
Seriam necessárias, pelas estimativas, 55.600 novas casas, distribuídas, no relatório final de Abercrombie de 1927, por sete novas cidades e várias aldeias menores. Quanto ao traçado geral, ele considerava “inevitável certo formalismo na organização de uma comunidade planejada artificialmente e construída com rapidez”, embora esse formalismo fosse “instintivamente suavizado pelas características naturais do terreno”. De todo modo, Abercrombie tendia a preferir projetos bastante formais, ao estilo Beaux-Arts, como vimos em seus planos para Plymouth e Hull depois da Segunda Guerra Mundial.
Quanto ao desenho das casas, sugeria que havia “muitos exemplos locais capazes de servir de inspiração” e propunha, com cautela:
“um estilo georgiano simples, modificado por um toque provincial, com telhados de inclinação um pouco acentuada, e com um sabor local adicional da influência flamenga na alvenaria de tijolos.”
Aylesham, novo assentamento próximo à mina Snowdown e às minas previstas — mas nunca abertas — nas vizinhanças de Adisham e Wingham, seria o cenário para os grandes projetos de Abercrombie. A Aylesham Tenants Ltd. foi criada como sociedade de utilidade pública pelo Conselho Distrital Rural de Eastry e pela Pearson & Dorman Long em julho de 1926; o Conselho do Condado de Kent juntou-se no ano seguinte. Com 600 acres de terreno e 600 mil libras para investir — em parte provenientes de um subsídio do Tesouro de 90 mil libras, um empréstimo de 350 mil libras dos Comissários de Empréstimos para Obras Públicas e 70 mil libras obtidas pela emissão de títulos — a sociedade iniciou a construção de 1.200 casas, concebidas como primeira etapa de uma cidade projetada para cerca de quinze mil habitantes.
O plano de Abercrombie previa uma grande avenida central arborizada, com um centro comercial no ponto onde as vias vindas das minas cruzariam o eixo principal. Igrejas, escolas e amplos espaços abertos foram dispostos em locais de destaque. Era um plano “científico” que demonstraria, segundo seus autores, a “beleza da eficiência e da harmonia” e que, diferentemente de muitas construções das autoridades locais da época, forneceria os elementos essenciais à vida comunitária “muito antes de sua necessidade efetiva ser sentida”. Abercrombie permitiu-se um gesto de fantasia: o traçado da cidade imitava a forma da estrutura de içamento de uma mina.
Construção da nova cidade
A construção das casas começou em setembro de 1926, e as primeiras quatro famílias pioneiras chegaram em maio do ano seguinte. As moradias, porém, não corresponderam às expectativas de Abercrombie. Das primeiras quatrocentas, metade foi construída em alvenaria tradicional de tijolos aparentes e a outra metade em estruturas de aço e concreto moldado no local. Essas últimas eram apresentadas como uma solução inovadora para construir rapidamente e contornar a falta de materiais e mão de obra qualificada. Em Aylesham, sua adoção provavelmente refletia mais os interesses comerciais da Pearson & Dorman Long, cuja subsidiária Dorman Long Housing Company era a principal promotora desse tipo de construção.
Outros equipamentos surgiram em seguida, num intervalo relativamente curto. Até o fim de 1927, quando a população de Aylesham era de cerca de mil habitantes, já funcionavam uma escola provisória, uma biblioteca e uma cooperativa. O primeiro pub, Greyhound Hotel, abriu em janeiro de 1928, e igrejas anglicana, de outras denominações protestantes e católica romana surgiram ao longo do ano seguinte. Como sinal da comunidade e da força de trabalho em formação, a banda de assistência social da mina Snowdown realizou seu primeiro desfile em junho de 1929. A nova Central School, peça central do plano, foi inaugurada no ano seguinte.
A cidade, entretanto, permanecia em estado embrionário, e algumas áreas transmitiam uma sensação de abandono. Eram ainda os primeiros tempos, mas que tipo de comunidade havia surgido? Em que medida, e com que êxito, os grandes planos para Aylesham e para a região carbonífera do leste de Kent se concretizaram? A publicação da próxima semana continuará a história.