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Aylesham e a vida mineradora

Aylesham: a cidade mineradora entre as promessas e a realidade

O desenvolvimento de Aylesham, as condições dos mineiros de Snowdown, as novas casas e as transformações depois do fechamento das minas.

Na semana passada, deixamos Aylesham — uma cidade nova, ainda pequena, mas da qual se esperava muito. Ela representava novos ideais e ambições urbanísticas; anunciava, como muitos esperavam, uma nova Grã-Bretanha industrial, cuja prosperidade se refletiria em lares mais saudáveis e felizes para os trabalhadores. Na prática, nada disso seria fácil.

No começo, havia grandes expectativas em torno da região carbonífera do leste de Kent, próxima aos mercados prósperos do sudeste da Inglaterra, numa época em que boa parte do país enfrentava um declínio industrial prolongado ou sofria os efeitos da Grande Depressão do início dos anos 1930. O número de mineiros de Kent passou de pouco mais de dois mil em 1925 para quase 7.500 dez anos depois, enquanto a força de trabalho das minas em escala nacional diminuía em um terço.

Ao declínio geral somavam-se as péssimas relações trabalhistas na indústria de propriedade privada, evidenciadas por uma greve nacional dos mineiros em 1921 e pela paralisação de nove meses em 1926, que esteve na origem da Greve Geral. As novas minas de Kent pareciam oferecer um recomeço.

Muitas das primeiras famílias de Aylesham chegaram profundamente endividadas. Seus filhos frequentemente sofriam de “diversas doenças, incluindo raquitismo e impetigo, atribuíveis em grande parte à alimentação insuficiente causada pelo desemprego do pai antes da mudança para Kent”. Vinham de comunidades mineradoras empobrecidas de todo o país — “de lugares tão distantes uns dos outros que alguns homens mal conseguem compreender a maneira como os outros falam”.

Anos depois, um dos primeiros moradores recordou aqueles tempos difíceis:

“Vinham caminhando lá de Durham, da Escócia... de qualquer aldeia que se possa imaginar na Grã-Bretanha. Aposto que todos sabiam onde ficava Snowdown. Só Snowdown os contratava, e aquilo não era uma mina, era uma desgraça — quente que só. Os homens estavam havia tanto tempo desempregados que Snowdown os estava matando... Começavam a aparecer furúnculos, espinhas, carbúnculos, por causa do calor. Trabalhar com 98 ou 100 graus não era nada de extraordinário.”

O sr. McEwan também destacou uma dificuldade local. Os mineiros apelidaram Snowdown de “Inferno de Dante”. Com cerca de 914 metros de profundidade, era uma das minas mais fundas do país e também uma das mais quentes, com temperaturas que chegavam a 38 °C e umidade de 80%.

Embora mais tarde tenha surgido ali uma comunidade forte e orgulhosa, o início estava longe de ser auspicioso:

“Nos primeiros três ou quatro anos, os galeses ficavam com os galeses, o pessoal de Derbyshire com o de Derbyshire e os Geordies com os Geordies. Se entrassem num pub, não eram amistosos — havia mais confusão do que qualquer outra coisa. Todo mundo vivia brigando por nada.”

Trabalho nas minas e vida comunitária

Mas existia uma fonte especial de conflito: o sistema de intermediários empregado em Snowdown. A companhia contratava um subempreiteiro, conhecido como butty, responsável por organizar uma equipe de trabalhadores e entregar carvão à superfície por um determinado valor por tonelada. As disputas sobre a parcela retida pelo intermediário e os salários que pagava à equipe eram inevitáveis e amargas.

Com minhas desculpas aos moradores atuais, que conhecem a cidade de uma forma muito diferente, Aylesham era considerada um lugar difícil: “Se você estendesse uma toalha ou um tapete no varal, precisava ficar vigiando; bastava entrar em casa e sumia tudo”. Segundo depoimentos posteriores, “se alguém quisesse acender o fogo, saía e arrancava as cercas”. Era também um lugar pobre, onde as compras locais eram caras e o transporte irregular custava muito.

Apesar de tudo, os homens empregados — com trabalho para ocupar seu tempo e lhes conferir posição social — tinham uma vida mais fácil do que suas esposas. A sra. Unwin chegou a Aylesham em 1931 e teve muita dificuldade para se adaptar:

“Eu não gostava daquilo. Chorava, chorava noite após noite durante muito tempo. Meu coração se partia de vontade de voltar, mas o que podia fazer? Estávamos casados e já tínhamos um bebê. Sentia falta da vida na minha cidade, e não havia nada na aldeia, entende? Não tínhamos dinheiro para pagar a passagem de trem e sair dali. Tudo parecia tão quieto, para quem estava acostumada a morar numa cidade, andar pelas lojas, nem que fosse só para olhar as vitrines. Ali não dava para fazer isso — não havia lojas, apenas uma cooperativa.”

Calcula-se que trezentas famílias tenham deixado a cidade nos primeiros dois anos. As partidas continuaram, muitas vezes durante a noite e às escondidas, quando as dívidas já eram impossíveis de pagar. Snowdown registrava uma rotatividade especialmente elevada de trabalhadores. Muitas vezes, como conclui Gina Harkell:

“a decisão de uma família de voltar à antiga cidade era iniciada pelas mulheres. As condições nas minas eram tão terríveis que muitos mineiros só precisavam de um pequeno empurrão de suas esposas infelizes e insatisfeitas para decidir voltar para casa.”

As boas intenções de Patrick Abercrombie pareciam ter dado em nada. As ambições maiores para a região carbonífera do leste de Kent haviam esmorecido, e os sonhos dos planejadores se apagavam, abalados pelas dificuldades econômicas que permitiram apenas sua realização parcial e pela quase impossibilidade de criar uma comunidade coesa em circunstâncias tão conflituosas.

As casas e o desenvolvimento interrompido

Em meados dos anos 1930, somente quinhentas casas haviam sido construídas num traçado projetado para cerca de duas mil. As moradias em si eram sólidas e dignas:

“Cada casa tem três quartos de tamanho razoável e um banheiro com lavatório de água quente e fria. A sala de estar é, em todos os casos, muito bem organizada, com duas janelas e um excelente fogão. Há iluminação elétrica em todos os cômodos, e o espaço dos armários é abundante.”

Mas até a existência de banheiros gerou controvérsia. Algumas mulheres consideravam que, “para evitar sujar os quartos com roupas encardidas, as banheiras deveriam ter sido colocadas no térreo”. O mesmo jornalista, porém — descrevendo uma realidade ou apenas repetindo um lugar-comum de seu tempo? — relatou que, nas aldeias vizinhas onde os banheiros ficavam no térreo, as banheiras frequentemente viravam depósitos, enquanto os mineiros preferiam lavar-se na pia da área de serviço. Talvez esse problema, pelo menos, tenha sido resolvido com a instalação dos primeiros banheiros na entrada das minas, pelo Comitê de Bem-Estar dos Mineiros, em 1935.

De maneira geral, contudo, um observador da época concluiu em 1933 que “toda a vila transmite uma atmosfera deprimente de desenvolvimento interrompido”. Embora o First National Housing Trust tenha construído outro conjunto de 104 casas em 1935, um crítico local igualmente severo encontrou quase uma em cada dez residências desocupada: “Aylesham não dá a impressão de ser um lugar feliz. Por quê?”. Ironicamente, ele culpava o controle exercido sobre os novos empreendimentos pela própria sociedade de utilidade pública Aylesham Tenants Ltd., encarregada de supervisionar o crescimento e a prosperidade da cidade.

Ao que tudo indica, pouco havia mudado em Aylesham até o fim da Segunda Guerra Mundial. Uma pesquisa do Ministério dos Combustíveis e da Energia retomou quase literalmente a avaliação anterior:

“o assentamento sofre de desenvolvimento interrompido, e muitos terrenos no centro da cidade ainda são campos de vegetação rasteira. Não existe nenhum edifício público de importância arquitetônica, com exceção da escola central, enquanto as casas apresentam um grau acentuado de monotonia.”

A cidade no pós-guerra

Muitas outras coisas, porém, haviam mudado. Para começar, as próprias minas passaram à propriedade pública em 1946. Isso fazia parte de uma transformação maior anunciada pela vitória esmagadora do Partido Trabalhista em 1945. As ideias e metas urbanísticas pioneiras no leste de Kent nos anos 1920 se tornaram dominantes depois dos efeitos regionais catastróficos da Grande Depressão e ganharam impulso adicional com a mobilização de guerra. Aylesham esperava se beneficiar.

O Ministério dos Combustíveis e da Energia concordou que a cidade precisava crescer. Calculava que seriam necessárias quatrocentas novas casas para voltar aos níveis de produção anteriores à guerra e mais quatrocentas para alcançar a produção máxima. O desenvolvimento habitacional ficaria em grande parte a cargo das autoridades locais e, em 1947, o Conselho Distrital Rural de Eastry aceitou uma proposta de 14.500 libras da Costains para construir 46 casas do modelo Airey. Cerca de 46 mil dessas residências pré-fabricadas de concreto armado foram erguidas nos primeiros anos do pós-guerra, numa tentativa de acelerar a construção e superar a escassez de mão de obra e materiais tradicionais.

Novas moradias foram construídas a oeste do centro original nas décadas de 1950 e 1960. São conjuntos municipais típicos da época: casas espaçosas, bem construídas, bem equipadas e, em geral, agradáveis. Em Aylesham, alguns nomes de ruas refletem o orgulho local e a política trabalhista.

Outra novidade veio em 1948, com a inauguração da fábrica de camisas Rego, que inicialmente empregava cerca de 160 pessoas e foi a primeira indústria local a oferecer empregos às mulheres. Havia consenso entre planejadores e políticos de que Aylesham era uma “comunidade desequilibrada” e precisava de indústrias leves, não apenas para atrair uma população mais diversificada, mas também para empregar mineiros aposentados por pneumoconiose.

A estrada projetada em 1950 deveria contribuir para isso. Havia, entretanto, esperanças maiores de que Aylesham recebesse parte da população de Londres que Abercrombie, como coautor do Plano do Condado de Londres de 1943, recomendara transferir da capital superlotada para regiões “além da influência metropolitana”. Em 1950, o conselho do condado tentou incluir a cidade na lista de “cidades ampliadas” do Ministério do Planejamento Urbano e Rural: localidades já existentes encarregadas de receber o excedente populacional das grandes aglomerações.

Essas expectativas não realizadas persistiram durante os anos 1960. O Plano de Desenvolvimento de Kent sugeria que Aylesham alcançasse quarenta mil habitantes em vinte anos. A população local abraçou essa ambição. Nas palavras do presidente do conselho paroquial:

“Recebemos bem toda e qualquer pessoa. Queremos indústrias leves e casas, porque assim teremos mais lojas e serviços para nossa gente. Queremos uma comunidade equilibrada. Os mineiros querem conhecer e conversar com pessoas de outras profissões e outros interesses.”

O fracasso desses planos pode ser contado de maneira simples: em 1961, Aylesham tinha 4.142 habitantes; em 2011, 4.999.

Fechamento das minas e transformações

Mas a história não termina exatamente aí. Uma nova expansão, agora nas mãos de incorporadoras privadas, está em curso e prevista para continuar. Um novo plano diretor foi aprovado em 2004, com autorização preliminar para até 1.200 moradias. Em 2016, as primeiras duzentas casas da nova “Aylesham Garden Village” haviam sido construídas; outras quatrocentas estavam previstas para 2018. É discutível se a Barratt Homes e a Persimmon Homes realmente cumprirão o ideal de “vila-jardim” que anunciam. Mas, ironicamente, é justamente essa “sensação de urbanismo moderno num idílio rural” que Patrick Abercrombie procurava nos anos 1920.

Enquanto isso, a própria razão de existir da cidade havia desaparecido. No auge, Snowdown empregava 3.500 homens. Em 1981, quando o Conselho Nacional do Carvão anunciou um prejuízo anual de nove milhões de libras na mina, apenas 960 trabalhadores permaneciam empregados, e ela estava destinada ao fechamento junto com outras 22 unidades. Uma paralisação de três dias dos mineiros de Kent, Escócia, País de Gales, Yorkshire e Durham obrigou as autoridades a reconsiderar temporariamente a decisão. Mas as palavras de Morris Bryan, presidente da seção de Snowdown do Sindicato Nacional dos Mineiros, foram proféticas: “Há milhões de toneladas de reservas. Se esta mina não está segura, nenhuma mina do país está”.

Com o aumento da ameaça de fechamento generalizado das minas no início dos anos 1980, ocorreu uma greve de mineiros que durou um ano, entre 1984 e 1985. Terminou num fracasso heroico, e os mineiros de Kent estiveram entre seus defensores mais firmes: 96% aderiram em novembro de 1984 e 93% continuavam parados quando o movimento foi finalmente encerrado. Antes da guerra, muitos mineiros incluídos em listas negras por atividade sindical em outras regiões haviam se mudado para Kent; essa herança militante permanecia viva. Mesmo assim, Snowdown fechou em 1987. Betteshanger, a última mina de Kent em funcionamento, seguiu o mesmo caminho em 1989.

Embora suas tradições e sua orgulhosa herança mineradora continuem presentes, a cidade precisou necessariamente se reinventar. Em 2014, a taxa de desemprego era de 2,8%, ligeiramente inferior à média britânica e um pouco superior à do sudeste. O censo anterior mostrava que um quarto dos trabalhadores locais ocupava funções de direção, profissionais especializados ou funções técnicas associadas, embora 40% dessas pessoas trabalhassem a dez quilômetros ou mais de casa. Em termos habitacionais, 59% dos domicílios eram ocupados por seus proprietários, ante uma média inglesa de 68% naquele período.

Foi uma longa trajetória. A atividade industrial vibrante imaginada para o leste de Kent nunca se concretizou. Os assentamentos-modelo, mais saudáveis e felizes, previstos para os trabalhadores que chegariam à região — Abercrombie sugerira que poderiam ser até 278 mil pessoas — murcharam antes de florescer. Ainda assim, devemos celebrar aquela tentativa pioneira de criar lares e comunidades da classe trabalhadora adequados à era moderna. Aylesham é um lugar digno para viver e conta com uma comunidade forte, que superou muitas dificuldades. Nossa sujeição às forças econômicas que governam nossas vidas, para o bem ou para o mal, aparentemente permanece.