Se você não é de Merseyside, provavelmente nunca ouviu falar do Woodchurch Estate, em Birkenhead. Mas, em 1944, o conjunto apareceu numa reportagem da revista Picture Post que, segundo se afirmou, “teve repercussões por todo o Império”. Talvez fosse exagero, mas, durante algum tempo, as ideias conflitantes sobre seu projeto dominaram não apenas a política local como também provocaram debates acalorados em círculos mais amplos de planejamento urbano e política. Esta publicação examina aquela controvérsia.
Antes, um pouco de contexto, pois quase nada até então sugeria que Birkenhead ganharia tamanho destaque na política habitacional. Diferentemente da vizinha Liverpool, que havia construído as primeiras moradias municipais do país e seguido projetos grandiosos no período entre guerras, os esforços de Birkenhead tinham sido modestos.
A cidade crescera como porto e centro de construção naval a partir do início do século XIX, passando de cerca de duzentos habitantes em 1820 para 77.435 quando foi incorporada como município em 1877. Onze anos depois, com mais 22 mil moradores, tornou-se uma autoridade municipal autônoma de condado.
O crescimento acelerado havia criado condições habitacionais terríveis para a classe trabalhadora. Os Queen’s Buildings, mais conhecidos localmente como Dock Cottages ou simplesmente Blocks, construídos em 1846 e financiados por John Laird, um dos principais empregadores locais, foram uma tentativa inicial de melhorar a situação. Eram 350 moradias em blocos de quatro andares, construídos segundo a planta “escocesa”, já que Laird vinha de Greenock, e considerados os primeiros edifícios residenciais de múltiplos pavimentos da Inglaterra. Apesar da disposição compacta e densa, os apartamentos eram avançados para seu tempo, com abastecimento de água fria, queimador de gás, duas camas de ferro e sanitário.
O conselho municipal posterior agiu com mais cautela. Até 1910, demolira cerca de 388 casas impróprias, mas construíra apenas dezoito casas pequenas e 88 apartamentos para substituí-las. Seu primeiro grande projeto habitacional, o Gilbrook Estate, em Prenton, no norte de Birkenhead, foi planejado em 1917, mas concluído, com alterações, depois da guerra. Nos anos 1920, o conselho também comprou e reformou os Dock Cottages para alugá-los como moradia municipal.
As preferências ideológicas do conselho, controlado pelos conservadores — ou talvez uma versão precoce da preferência atual por “comunidades mistas” —, apareceram na construção do Tranmere Hall Estate nos anos 1920. Ali, de maneira incomum, quatrocentas casas foram construídas para venda, podendo ser adquiridas diretamente do município nas condições vantajosas oferecidas pela Lei das Pequenas Moradias.
Quando comprou, em 1926, uma extensão de terras agrícolas no centro da península de Wirral, além dos limites municipais da época, que se tornaria o Woodchurch Estate, o conselho foi ainda mais ambicioso. Surgiu a ideia de desenvolver a área nos moldes de uma cidade-jardim, embora sem autogoverno, com terrenos concedidos em arrendamento a incorporadoras e receitas destinadas à autoridade local. Ao mesmo tempo, o conselho procurou um dos arquitetos e urbanistas mais conhecidos da época, T. H. Mawson, professor da prestigiosa Escola de Desenho Urbano de Liverpool e eleito presidente do Instituto de Planejamento Urbano em 1923.
Os primeiros planos para Woodchurch
Mawson apresentou suas primeiras recomendações em 1927 e um relatório mais completo, ilustrado e datilografado, em 1929. Prometia:
“um empreendimento que beneficie... as gerações futuras — estética, higienicamente, na prática e sob todos os aspectos... o mais bonito e de melhor gosto de sua espécie em todo o Reino.”
O plano fazia referência explícita aos ideais Arts and Crafts de William Morris e Raymond Unwin e aos princípios do Relatório Tudor Walters de 1918. Mawson falava de faixas largas de gramado e ruas arborizadas, chegando a propor a “medida um tanto incomum” de plantar roseiras, em vez de árvores, ao longo de algumas das melhores vias. Quanto às casas, o projeto refletia a realidade habitual de uma “comunidade mista”: residências grandes para os ricos, versões menores para a classe média e pequenas casas em fileira, com aluguel municipal, para os trabalhadores. Sugeriu, porém, que essas últimas fossem construídas em torno de “pequenas praças urbanas” para evitar a monotonia.
Eu poderia escrever mais, mas a adoção formal dos planos de Mawson foi adiada e, em algum momento de meados dos anos 1930, discretamente abandonada. A controvérsia que prometi ainda estava por vir, embora as ideias sobre “comunidade” levantadas aqui viessem a ser centrais na discussão posterior.
Em outros lugares, o planejamento continuava. Em 1939, já haviam sido adquiridas terras para o que se tornaria o Mount Estate, em Prenton, e o engenheiro municipal Bertie Robinson elaborara planos para um subúrbio-jardim de aproximadamente 502 casas. A guerra atrasaria sua execução, mas, até seu início em 1939, a administração havia construído cerca de 4.500 moradias municipais.
Birkenhead sofreu muito durante a guerra: 2.079 casas foram destruídas por bombardeios e 26 mil ficaram gravemente danificadas. Cerca de 3.464 pessoas perderam a vida. Mas o planejamento de um amanhã melhor começou cedo. Em 1944, Bertie Robinson revelou novos planos para o Woodchurch Estate. Por volta da mesma época, o conselho contratou o professor Charles Reilly como consultor de planejamento, incumbido de elaborar um plano preliminar para Birkenhead inteira no pós-guerra. Reilly fora professor de arquitetura da Universidade de Liverpool de 1904 até sua aposentadoria em 1933. Figura carismática, era mais conhecido como educador influente do que como profissional de projetos.
Robinson publicou os detalhes de sua proposta na revista The Builder em novembro de 1944. Começou descrevendo o terreno no vale do Fender: 457 acres, dos quais seria preservado o grande Arrowe Park, pertencente ao município, com campo de golfe, pistas de boliche e campos de futebol, enquanto o “atraente subúrbio” de Upton também seria conservado. Quanto às áreas residenciais, propunha “uma cidade-jardim destinada à habitação, baseada na unidade de vizinhança”.
No traçado, planejou duas avenidas de cem pés de largura formando uma cruz numa praça central — segundo ele, essa disposição dera ao empreendimento o nome de “Green Cross”, Cruz Verde — e outra avenida de sessenta pés, da qual partiriam as vias de serviço do conjunto. Estas deveriam seguir “linhas atraentes, com faixas gramadas, arbustos, árvores e curvas suaves”. Haveria pouco incentivo ao tráfego “que não fosse destinado ao próprio conjunto”.
O empreendimento como um todo deveria conter 2.540 moradias, para cerca de 10.800 pessoas: casas com dois, três, quatro ou cinco quartos, “adequadas a orientações norte ou sul”, construídas “em blocos de duas, até fileiras de oito”, com recuos variáveis em relação à rua.
Com uma área comercial central e duas secundárias, previsão de 156 lojas no total, salão público e centro comunitário, 22,5 acres de hortas, dez escolas, uma “Faculdade dos Jovens” e abundância de espaços abertos, era um projeto ambicioso e estudado, que refletia as ideias urbanísticas contemporâneas de planejamento centrado na comunidade, destinadas a melhorar a forma e o caráter tão criticados dos subúrbios de pequenas casas do período entre guerras.
Entra em cena Reilly. Ele descreveu:
“não gostei muito da aparência desse traçado, que seguia as linhas de um subúrbio-jardim comum... Sugeri ao engenheiro municipal que fizéssemos juntos um novo plano de implantação.”
A proposta de Charles Reilly
Com menos delicadeza, num artigo para a revista de esquerda Tribune, chamou o projeto de Robinson de “um plano danadamente ruim”. Quando Robinson rejeitou a oferta de colaboração, Reilly, em suas próprias palavras, “expliquei as ideias que achava que seriam bem recebidas em toda parte e disse a ele que faria seu nome com elas, se as adotasse”.
A intervenção não solicitada de Reilly e o conflito que se desenvolveu, pelo menos do lado dele, acabaram se tornando uma controvérsia muito maior. Essencialmente, quando foram melhor desenvolvidos, os planos alternativos de Reilly continham uma grande ideia: os gramados comunitários em torno dos quais as casas seriam agrupadas. Ele os explicou num relatório publicado pelo Birkenhead News em abril de 1944:
“As inspirações do projeto são o gramado da aldeia inglesa e as pequenas praças das cidades do interior, onde as crianças podem brincar e os vizinhos se ver e conservar a amizade das ruelas e dos cortiços. Com pares de casas geminadas nas ruas curvas típicas de um subúrbio-jardim, essa amizade... transforma-se em esnobismo suburbano porque as pessoas não veem nem conhecem os vizinhos. As casas viram as costas umas às outras, e as pessoas também.”
Mais tarde, ampliou seu ataque aos subúrbios:
“Por que os romancistas demonstravam tanto desprezo pelos subúrbios? Porque eles criavam uma visão estreita, na qual o espírito de equipe não se desenvolvia. Faltava o desenvolvimento intelectual que surge quando se aguçam as próprias capacidades... permitir que cada pessoa brincasse com seu pequeno castelo havia produzido um espírito antissocial.”
Nisso, naturalmente, Reilly refletia muito do esnobismo invertido dirigido contra os subúrbios naquela época e ainda hoje.
Também expressava o desprezo de um arquiteto pelos profissionais técnicos, aqui representados pelo pobre engenheiro municipal:
“Sem querer personalizar de modo algum, como arquiteto sinto que o desenho da disposição de casas para habitação humana não é, em primeiro lugar, uma tarefa de engenheiro. A formação do engenheiro em estruturas metálicas, drenagem e outras coisas desumanas desse tipo não o prepara para isso. Não é suficientemente humana. O arquiteto, porém, está sempre pensando em vidas humanas. É ele, sugiro, quem deve fazer o planejamento, enquanto o engenheiro o mantém correto nos aspectos mecânicos.”
Robinson guardou suas opiniões durante toda a disputa, embora tivesse escrito de maneira ponderada — reconhecidamente num tom burocrático comedido — sobre habitação num artigo para uma revista profissional em 1936.
Para além dos conflitos pessoais, contudo, havia ideias urbanísticas. O próprio Reilly descreveu seu conceito dos gramados comunitários como “um princípio de planejamento seminovo”. Ele devia muito aos quadrângulos de Unwin e tinha semelhanças com os gramados de boliche de Port Sunlight, nas proximidades. Sua crítica geral aos subúrbios e, em especial, aos conjuntos municipais periféricos era muito atual e ganhou força com a publicação, em maio de 1944, do Relatório Dudley sobre o Projeto de Moradias, encomendado pelo governo, que também era crítico.
Política, comunidade e a Nova Grã-Bretanha
E, além da discussão urbanística, havia política: uma política ampliada pelas condições de guerra e pelas aspirações do pós-guerra. Na forma mais simples, tratava-se de disputa partidária e, em Birkenhead, o debate entre os projetos concorrentes dividiu-se nitidamente por linhas políticas. O Partido Conservador, que governava a cidade, preferia a proposta de Robinson. A oposição trabalhista, em ascensão, favorecia aquilo que já se chamava Plano Reilly e fazia campanha intensa por ele.
Nesse ponto, o debate se confundia facilmente com a questão maior da escassez habitacional. Em julho de 1945, havia 2.300 pessoas na lista de espera por casas municipais em Birkenhead e, segundo se dizia, 150 novos pedidos por semana. Em termos simples, a disputa sobre Woodchurch era uma questão local muito útil para marcar diferenças entre os partidos.
Mas era muito mais do que isso. Também dizia respeito àquele momento verdadeiramente singular da história britânica, quando debates apaixonados sobre uma Grã-Bretanha nova, mais moderna e melhor, que surgiria com a paz, dominavam o cenário. Em dezembro de 1944, falando na conferência anual do Partido Trabalhista, Harold Laski declarou que “para os socialistas, a guerra se tornava a cada dia mais completamente uma guerra ideológica”. O sacrifício exigido dos combatentes:
“só pode ser justificado de uma maneira. Será justificado na medida em que a comunidade socialista se torne a herança da civilização que procuramos remodelar.”
A conferência aprovou então uma resolução afirmando que “a base comunitária do planejamento urbano, ilustrada pelo plano do professor sir Charles Reilly para o Woodchurch Estate, em Birkenhead, atenderia melhor às necessidades habitacionais do pós-guerra”.
Na reportagem da Picture Post mencionada no início, Caradoc Williams, secretário do Conselho Sindical de Birkenhead, declarou seu apoio ao Plano Reilly com o espírito, senão com a retórica, de Laski:
“Acredito que ele está de acordo com o espírito comunitário desenvolvido durante a guerra. A opinião pública aqui quer um plano progressista. Afinal, os homens lá fora estão lutando por lares dignos, não apenas por casas.”
Mary Mercer, ex-vereadora trabalhista, enxergava “um espírito no Plano Reilly... o espírito da Nova Grã-Bretanha”. Os conservadores de Birkenhead não estavam tão convencidos.
Para o vereador Guy Williams:
“Toda a ideia do Plano Reilly é estimular o espírito comunitário. Não sei se isso é bom ou não. Mas, se um homem não tem espírito comunitário, deveria agradecer a Deus por uma cerca viva de cinco pés ao redor da casa.”
Para Lawrence Wolfe, que certamente leu esse artigo, não poderia haver expressão mais clara do “modo de vida isolacionista” que considerava tão prejudicial à mentalidade e à sociedade britânicas. Foi Wolfe quem, em 1945, defendeu com mais paixão O Plano Reilly: Uma Nova Forma de Vida, título de seu livro.
Para ele, o plano era a cura de todos os males psicológicos e sociais. O livro oferece uma exposição muito ampliada e altamente prescritiva das propostas de Reilly, incluindo que o centro comunitário deveria oferecer “restaurante e serviço de refeições”, com alimentos entregues em grandes recipientes às creches e “em pequenas garrafas térmicas” às pessoas. Wolfe passou então a tratar de preocupações da época sobre natalidade e comportamento sexual: “Sob o Plano Reilly, o casamento precoce é fácil e normal”; “a imoralidade sexual fora do casamento também diminui”; as doenças venéreas recuam; e a taxa de natalidade aumenta.
Em seus momentos mais fantasiosos, Wolfe invocava não apenas uma Nova Grã-Bretanha, mas uma alegre velha Inglaterra:
“No mundo dos gramados das aldeias, a dança não fica restrita a horários e lugares especiais. As pessoas dançam quando têm vontade — e frequentemente têm. Uma festa improvisada pareceria loucura no meio de uma rua isolacionista; no gramado, parece perfeitamente natural, e o transeunte, longe de se divertir com tolerância ou se escandalizar, provavelmente se juntará aos demais.”
A introdução de Reilly ao livro observa, de maneira desarmante:
“as muitas implicações que [Wolfe] encontrou no plano, e que confesso não ter percebido inteiramente quando o desenhei... ele, fico feliz em dizer, discerne muitas vantagens adicionais naquilo que eu considerava apenas uma expressão natural de boa vizinhança.”
Na realidade, aquela era muito mais a visão de Wolfe, e o Plano Reilly era seu veículo escolhido. Mas Reilly, aos 71 anos e sempre empenhado em divulgar as próprias ideias e seu papel, ficou contente em acompanhá-lo.
Apesar de toda a tempestade e tensão, o conselho, dividido por partidos, havia endossado a proposta de Robinson em fevereiro de 1944. Uma iniciativa do líder trabalhista Charles McVey para abrir uma investigação sobre os projetos rivais foi derrotada em julho.
Isso, porém, não foi exatamente o fim dos gramados de Reilly. A ideia foi recebida com entusiasmo, e com a participação ativa do arquiteto, pelos municípios de Bilston e Dudley, na Black Country. Nada menos que Lewis Silkin, ministro do Planejamento Urbano e Rural, elogiou-a em seu importante discurso de apresentação da segunda leitura do Projeto de Lei das Novas Cidades, em maio de 1946: “o experimento estava prestes a ser tentado em Bilston... e ele o acompanharia com interesse”. No fim, o conceito foi aplicado de forma muito diluída. O próprio Reilly morreu em fevereiro de 1948.
De volta a Birkenhead, em março de 1945, o conselho aprovou os planos definitivos para Woodchurch: nem os de Reilly nem os de Robinson, mas novas propostas elaboradas pelo arquiteto de Liverpool Herbert J. Rowse. A publicação da próxima semana examinará essa história e a trajetória mais longa do Woodchurch Estate que emergiu desse episódio extraordinário.