ARCHDESIGNERARQUITETURA E HISTÓRIA URBANA
Arquitetura e habitação em Zurique

Habitação municipal em Zurique: Limmat, Heiligfeld e Lochergut

Conheça a história arquitetônica das moradias municipais de Zurique, do Wohnsiedlung Limmat I aos conjuntos Heiligfeld, Lochergut e Hardau.

Quando pensamos na Suíça, além de sinos de vacas e relógios de cuco, provavelmente imaginamos um dos países mais ricos do mundo — e com razão, já que um em cada quinze habitantes é milionário e o patrimônio médio por adulto gira em torno de 700 mil dólares. Por isso, talvez não pensemos nela como uma nação de inquilinos. Mas apenas 43% da população possui a própria casa, resultado do alto custo da propriedade, de um mercado hipotecário restritivo e da existência de um setor de aluguel privado fortemente regulamentado.

Em Zurique, quase três quartos das famílias moram de aluguel e aproximadamente uma em cada quatro casas pertence a uma cooperativa ou entidade pública e é administrada por ela. Atualmente, cerca de 15.300 pessoas vivem em habitações municipais. O que segue não é uma história completa desse sistema, mas uma análise de três empreendimentos principais que consegui visitar durante uma passagem breve pela cidade e que, a meu ver, são exemplos bastante representativos.

A cidade moderna de Zurique foi constituída em 1893 e ampliada em 1934, mas suas raízes remontam a 1218, quando se tornou uma “cidade livre” dentro do Sacro Império Romano-Germânico. No século XIV, o fortalecimento das corporações de ofício ampliou o autogoverno municipal, e a cidade ingressou na Confederação Helvética, que daria origem à Suíça, em 1351.

Embora o desenvolvimento político da cidade e do país tenha sido bastante singular, em outros aspectos a evolução de Zurique foi mais característica da industrialização e urbanização europeias do século XIX. Sua população cresceu de aproximadamente 17.200 pessoas em 1800 para 150.700 em 1900.

Dois subúrbios industriais foram incorporados à nova cidade em 1893: Wiedikon e Aussersihl, uma área conhecida até hoje como Industriequartier, o bairro industrial. As condições de moradia eram ruins e, nas palavras traduzidas de um relato posterior da própria administração municipal:

“ficou evidente que nem o mercado nem as empresas ou os cidadãos com consciência social poderiam oferecer qualquer alívio significativo. A tuberculose era uma doença generalizada, e a insatisfação social ameaçava a coesão da sociedade. Com base em estudos aprofundados da oferta habitacional, a cidade de Zurique decidiu, pela primeira vez, atuar diretamente na política de moradia: a partir de então, desejava promover a construção por cooperativas e também erguer apartamentos para os setores particularmente desfavorecidos da população.”

É uma história familiar: o Estado intervém quando o mercado e a filantropia privada fracassam.

Limmat I e o início da construção municipal

O resultado foi o Wohnsiedlung Limmat I, ou Conjunto Habitacional Limmat I. Um plano abrangente de desenvolvimento municipal já havia reservado sua localização para moradias em 1901. O empreendimento, projetado pelo arquiteto da cidade Friedrich Wilhelm Fissler, foi concluído em 1908: três edifícios organizados em quadras perimetrais, com 253 apartamentos, aproximadamente metade deles de três quartos.

O conjunto deveria servir como modelo a ser reproduzido em maior escala. Segundo a administração municipal, trouxe “um toque de estética burguesa ao bairro operário”. Essa estética aparecia nos revestimentos decorativos de gesso, cornijas e janelas salientes, além de detalhes inspirados tanto nos motivos ingleses do movimento Arts and Crafts quanto nas tradições de Zurique. Infelizmente, parte desses detalhes se perdeu quando o conjunto foi renovado de forma “simplificada” nos anos 1930. A novidade provavelmente mais apreciada pelos próprios moradores eram os pátios internos verdes, ainda bastante utilizados quando os visitei num fim de semana ensolarado.

Em outros aspectos, para manter baixos os custos e os aluguéis, os apartamentos eram básicos: não possuíam aquecimento central nem banheiros. Surpreendentemente, algumas dessas deficiências só foram corrigidas nos anos 1970. A proposta inicial era reconstruir toda a área com edifícios altos, mas a orientação mudou em favor da renovação urbana, e uma grande reforma deu nova vida ao conjunto. As dimensões generosas dos apartamentos permitiram acrescentar banheiros sem comprometer as áreas de estar e jantar. Lavanderias e salas de secagem que ficavam nos sótãos foram transferidas para os porões, criando espaço para novas acomodações. Por último, mas não menos importante, instalou-se aquecimento central.

Além de apoiar diversas organizações cooperativas, a própria cidade continuou a construir durante o período entre guerras, com blocos de apartamentos semelhantes, porém adaptados, mantendo a mesma atenção à estética arquitetônica e à infraestrutura dos conjuntos.

Depois da Segunda Guerra Mundial, entretanto, surgiu outra crise habitacional. O aumento dos preços e a escassez de materiais e trabalhadores provocaram uma verdadeira falta de moradias acessíveis. Em abril de 1946, estimava-se que seiscentas famílias pobres estivessem ameaçadas de ficar sem teto. A cidade ofereceu empréstimos adicionais às cooperativas, e a decisão de retomar seu próprio programa construtivo, apoiado por um empréstimo de oito milhões de francos suíços, foi endossada em referendo em agosto daquele ano. Na Suíça, iniciativas importantes de política pública e despesas continuam dependendo do voto dos eleitores locais. Até 1960, haviam sido construídos nove conjuntos municipais e mais de mil apartamentos.

Os conjuntos Heiligfeld

O primeiro foi o Wohnsiedlung Heiligfeld I, construído num subúrbio ocidental da cidade entre 1946 e 1948, com projeto de Josef Schütz e Alfred Mürset. O conjunto reúne 124 apartamentos familiares em cinco blocos, dispostos num eixo norte-sul para maximizar a insolação, com pátios ajardinados e arborizados alternados com áreas de serviço. Sua forma refletia novos regulamentos de construção e zoneamento, confirmados em 1947.

A escassez persistente de materiais exigiu improvisações com gesso e escória. Colocaram-se mantas de fibra de vidro entre pisos e tetos, partindo do pressuposto de que os inquilinos não poderiam comprar carpetes.

As cozinhas, equipadas com fogões e fornos elétricos, se abriam para varandas privadas e salas de jantar; cada apartamento tinha sua própria caldeira para água quente. O aquecimento, porém, era ao mesmo tempo mais rudimentar e engenhoso. Esperava-se que um fogão a lenha instalado no centro do apartamento aquecesse toda a residência, algo possível graças a um traçado em que os cômodos se comunicavam e “fluíam” uns para os outros. As portas eram o meio simples de regular a temperatura.

O Wohnsiedlung Heiligfeld II surgiu pouco depois: um longo bloco de cinco andares na Badenerstrasse, com 71 apartamentos, concluído em 1950. A maioria tinha três cômodos, ou seja, dois quartos. Embora a planta contínua do predecessor tivesse sido abandonada, esses apartamentos estavam entre os primeiros da cidade a receber aquecimento central. O sistema, entretanto, queimava carvão e, para facilitar a vida dos moradores, construiu-se um elevador exclusivo entre a calçada e o depósito de carvão no subsolo. Um “carregador de carvão” em tempo parcial foi escolhido entre os inquilinos para abastecer o sistema diariamente. O carvão foi substituído por um sistema movido a óleo combustível em 1987.

Embora construído apenas três anos depois, o Wohnsiedlung Heiligfeld III marcou o início de uma nova era no projeto e na oferta de habitação pública, com uma mudança decisiva em relação aos tradicionais blocos de apartamentos que haviam dominado até então. O conjunto, projetado pelo arquiteto municipal Albert H. Steiner, incluía os primeiros edifícios altos de Zurique: duas torres de doze andares com planta em Y na Letzigraben e três blocos de oito andares. Os edifícios se integram de maneira confortável e atraente a um terreno cuidadosamente ajardinado, cuja importância no conjunto foi considerada equivalente à da arquitetura. Gustav e Peter Ammann supervisionaram o plantio, enquanto o arquiteto Alfred Trachsel projetou o parque infantil e a colina para trenós, inovadora naquele período.

Ao todo, os doze blocos, incluindo os elementos mais baixos, ofereciam 151 apartamentos. Para ajudar os novos moradores a se adaptar à vida em edifícios de vários andares, Steiner encomendou a duas empresas de mobiliário e à turma de design de interiores de Willi Guhl, da Escola de Artes e Ofícios, a decoração de alguns apartamentos-modelo.

Nos anos 2000, ocorreram reformas importantes. Vários apartamentos pequenos foram combinados para formar moradias de quatro quartos em um dos blocos. O parque público foi redesenhado em 2003 e ganhou uma torre de escalada e rochas independentes para escalar, hoje elementos marcantes do local. Atualmente, os conjuntos Heiligfeld, bem conservados e respeitados, instalados em áreas verdes generosamente ajardinadas e ligados ao restante da cidade por bondes rápidos, continuam oferecendo habitação pública de primeira qualidade.

Lochergut e a urbanidade pela densidade

A moradia ainda era escassa no fim dos anos 1950, quando o município teve uma oportunidade importante de construir em grande escala ao adquirir uma antiga área industrial logo a oeste do centro. Na Suíça e em outros países, as ideias urbanísticas se afastavam então da expansão dispersa dos subúrbios-jardim antes preferidos. “Urbanidade por meio da densidade” tornou-se o novo lema: maior densidade e usos mistos, com uma combinação mais ampla de classes sociais. Alguns descreviam o objetivo como “uma cidade dentro da cidade”.

À maneira tipicamente suíça, vieram duas etapas. Primeiro, em 1959, o município organizou um concurso de arquitetura para o novo conjunto. Karl Flatz venceu com um projeto ambicioso que incluía uma torre de 28 andares e um total de 461 apartamentos. A inquietação pública levou à redução da altura e do tamanho do empreendimento. A segunda etapa, o referendo exigido para aprovar grandes projetos e despesas, deu sinal verde à proposta com 85% dos votos. A construção de Lochergut começou em 1963; as primeiras casas foram ocupadas em 1966.

O conjunto concluído reúne seis blocos altos principais: os blocos A e D têm dezoito andares; E, F e G têm quinze, onze e sete, respectivamente. No centro, o bloco C chega a 21 pavimentos. Diz-se que o conjunto lembra uma cadeia de montanhas. Dos andares superiores, naturalmente, é possível ver montanhas de verdade, além das amplas vistas do vale do Limmat.

Além dos 346 apartamentos de dupla orientação, predominantemente de dois quartos, o complexo possui uma oferta generosa de espaços e equipamentos comunitários: oito salas de trabalho, salão comum, berçário, creche e centro juvenil, além de consultório médico. A área comercial subterrânea original, um tanto sombria, foi amplamente redesenhada em 2003. Os subsolos oferecem estacionamento para 980 carros e aquilo que se chama de “instalação de defesa civil”. De maneira mais alegre, também formam uma plataforma sobre a qual foi criado um jardim cuidadosamente plantado e projetado para os moradores.

A cidade encerrou seus projetos de edifícios altos com Hardau Hochhaus, incomum para a Suíça: quatro torres isoladas, sendo que a mais alta chega a 31 andares e 95 metros de altura. Projetado por Max P. Kollbrunner, o conjunto foi construído entre 1976 e 1978.

Habitação cooperativa e qualidade dos projetos

Este relato examinou seletivamente os empreendimentos municipais de Zurique. Nesse sentido, embora a atuação das autoridades locais tenha sido especialmente importante na cidade, a perspectiva apresentada é um tanto simples. A síntese de Miles Glendinning sobre a “habitação em massa” suíça explica como o financiamento federal limitado promoveu moradias de diferentes formas de ocupação: cooperativas, empreendimentos privados e municipais. Em Zurique, por exemplo, em 1952, cinco partidos de classe média fundaram a Stiftung Bauen und Wohnen, Fundação para Construção e Habitação, uma entidade autônoma destinada a evitar a intervenção pública direta.

O resultado, evidentemente favorecido pela riqueza do Estado suíço e pelo compromisso do país com a infraestrutura pública de alto padrão, é uma variedade de habitações sociais, em sentido amplo, de qualidade incomum. Os investimentos foram significativos e contínuos. Os projetos são elaborados por arquitetos e geralmente contratados por concursos de arquitetura.

Para concluir, vejamos o Siedlung Brahmshof, ao lado dos conjuntos Heiligfeld, projetado pelos arquitetos Kuhn, Fischer e Hungerbühler para a Evangelische Frauenbund Zürich, Liga Evangélica das Mulheres de Zurique, e concluído em 1991. Além da arquitetura marcante dos edifícios e do pátio atraente e muito utilizado, o empreendimento se destaca por sua finalidade social. Seus 65 apartamentos atendem a uma comunidade deliberadamente diversa: estudantes, famílias, idosos e também pessoas com deficiências físicas e de aprendizagem em apartamentos compartilhados. O conjunto ainda oferece aconselhamento social e jurídico gratuito para mulheres, um lar infantil e uma creche. É um lembrete do que associações habitacionais com bom financiamento e objetivos filantrópicos claros conseguem realizar.