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Os conjuntos habitacionais de Sheffield entre as guerras

Sheffield construiu cerca de 28 mil moradias municipais entre as duas guerras mundiais. Em 1926, também se tornaria a primeira grande cidade governada pelo Partido Trabalhista. As críticas dos trabalhistas à economia excessiva e ao cauteloso programa habitacional do conselho foram um fator importante para levá-los ao poder. Pode-se argumentar que o programa habitacional que implementaram em seguida foi essencial para que conservassem o controle da cidade durante quase todo o período posterior, com exceção de apenas dois intervalos de um ano.

Em 1919, porém, até a Citizens’ Alliance — coalizão contrária aos trabalhistas que governou até 1926 — havia sido tomada pelo fervor patriótico e pela necessidade política de fazer alguma coisa pelas pessoas comuns que tanto haviam sacrificado na Grande Guerra.

O conselho encarregou Patrick Abercrombie de elaborar um levantamento e plano cívico, com a missão específica de formular uma estratégia que separasse a indústria das moradias. Seu relatório de 1924 — descrito por Abercrombie como o alicerce de seus trabalhos posteriores — recomendava o zoneamento de fábricas e residências e a criação de novas cidades-satélites dentro de um cinturão verde. Pouco disso foi executado, mas Sheffield construiu vários grandes bairros de casas individuais.

O projeto do Manor Estate

O Manor Estate foi o maior deles, construído a cerca de três a cinco quilômetros do centro, em 470 acres de terras compradas em 1919 do senhor da propriedade, o duque de Norfolk. Desse total, 350 acres foram reservados para 3.754 casas sólidas, de dois ou três quartos e com jardins generosos; 70 acres foram destinados a campos de recreação, e 37 acres a edifícios públicos. A construção começou em 1923, e cerca de 2.697 moradias foram erguidas ao longo da década de 1920.

O traçado geral aprovado em 1921 — um desenho geométrico de círculos que se cruzavam — devia algo aos princípios das cidades-jardim da época, mas recebeu críticas por demonstrar “pouca consideração pelo relevo natural de Sheffield”. O efeito geral, segundo alguns, era “desolador”.

A coalizão contrária aos trabalhistas também demonstrou certa iniciativa ao começar um grande programa de eliminação de cortiços a apenas 1,6 quilômetro a sudeste do centro, no que se tornaria o Wybourn Estate. A obsessão da coalizão por economizar, entretanto, deixou sua marca no conjunto: os inquilinos tinham de pagar dois xelins por semana se quisessem água quente e eletricidade, que não eram fornecidas como padrão.

Os trabalhistas criticavam essa parcimônia e a falta de equipamentos comunitários nos conjuntos. No Manor Estate, por exemplo, havia 3 mil crianças em idade escolar, mas apenas 232 vagas em escolas instaladas em barracões de madeira, em 1926. Criticavam também o custo das casas construídas por empreiteiras privadas e a má qualidade da execução. Depois de 1926, a organização de obras diretas do conselho construiria a maior parte das novas moradias municipais de Sheffield.

Wisewood e os novos conjuntos dos trabalhistas

Um dos primeiros conjuntos iniciados pela nova administração trabalhista foi Wisewood, construído em terras agrícolas no vale de Loxley, a noroeste da cidade. Entre 1928 e 1931, foram erguidas ali cerca de 901 casas, a um custo aproximado de 400 mil libras.

O conjunto ficou conhecido como “Buttons Estate”, ou “conjunto dos botões”, porque muitos dos novos moradores usavam uniforme no trabalho. Era um lembrete — assim como no Dover House Estate, em Putney, conhecido como “Uniform Town” — de que boa parte dos primeiros moradores das habitações municipais pertencia ao segmento mais bem remunerado da classe trabalhadora, empregado nos serviços públicos.

Em Sheffield, como em outros lugares, a década de 1930 trouxe maior ênfase à eliminação dos cortiços e ao reassentamento de seus moradores. Na cidade, 24.374 casas haviam sido demolidas por ordens de desocupação e demolição até 1938. Sua taxa de reposição dessas moradias, de 44%, era a mais alta do país.

Em 1932, o Manor Estate já possuía quase 3.600 casas e, em 1939, contava com uma população de aproximadamente 16 mil habitantes. O conselho também construiu uma série de enormes conjuntos nas bordas da cidade: Parson Cross, com 5.362 casas; Shiregreen, com 4.472; Shirecliffe, com 1.274; e Arbourthorne, com 2.832.

Em parte por economia e, sobretudo, na tentativa de tornar as casas acessíveis a trabalhadores menos abastados, o conselho reduziu o número de moradias maiores, com três quartos e sala de visitas, nesses conjuntos posteriores. Ainda assim, manteve padrões elevados e resistiu à acusação do Ministério da Saúde de que estava ultrapassando os requisitos mínimos. Reconheceu que o fazia ao fornecer gás e eletricidade às casas, mas se recusou a reduzir as especificações, alegando que “a economia imediata seria anulada pelos custos posteriores de reparos”.

Equipamentos comunitários e a acusação de privilégios

O conselho também estava à frente de seu tempo na oferta de equipamentos comunitários. O Manor Community Centre, inaugurado em 1933, foi o primeiro construído por uma autoridade local. Em 1938, o conselho anunciou planos para um programa de centros nos novos conjuntos, com custo previsto de 120 mil libras. Isso levou o vereador Jackson, da oposição contrária aos trabalhistas, a descrever os inquilinos municipais de Sheffield como “os queridinhos mimados da corporação municipal”.

Pesquisas sociais mais objetivas desmentiam essa afirmação. Vários levantamentos foram feitos no Wybourn Estate no início da década de 1930. Ali, onde a população era mais pobre do que em alguns outros conjuntos, constatou-se que 35% dos antigos inquilinos haviam voltado para o centro da cidade, principalmente devido aos aluguéis relativamente elevados cobrados nos conjuntos municipais. Dois terços dos entrevistados tinham pago menos de sete xelins antes da mudança, ao passo que uma casa municipal de três quartos custava dez xelins e seis pence de aluguel em 1931. Pouco mais de 7% dos moradores gastavam mais de um terço de seus salários com aluguel.

Como se recordava naquela época:

Havia pouca ajuda dos serviços sociais, mas os vizinhos ajudavam como podiam. Se você não conseguia pagar, simplesmente tinha de se mudar para algum lugar que pudesse bancar.

Se a capacidade de pagar não bastasse como prova da respeitabilidade dos inquilinos, havia também “o homem que vinha verificar se você estava cuidando direito do jardim e, se não estivesse, o conselho tomava alguma providência”.

Embora a superlotação fosse um problema muito maior nos cortiços centrais, onde mais da metade das casas ultrapassava os padrões de ocupação, ela também existia em Wybourn. Algumas famílias numerosas haviam optado por casas menores e mais baratas, de dois quartos; outras, contrariando os regulamentos, aceitavam pensionistas. Doze por cento das moradias do conjunto estavam superlotadas.

Apesar de tudo, a maioria dos entrevistados elogiava o novo ambiente e acreditava que era mais saudável. Um inquilino descreveu sua mudança de Attercliffe para Manor como a chegada à sua “mansão no círculo”. Alguns, conhecendo a reputação mais recente do Manor, achariam isso surpreendente. Essa história fica para a próxima semana.