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História urbana de Wigan

Habitação municipal em Wigan entre as guerras e George Orwell

O desenvolvimento das casas municipais de Wigan entre 1919 e 1939, os conjuntos Beech Hill e Bottling Wood e as observações de George Orwell.

Na semana passada, deixamos Wigan nos meses finais da Primeira Guerra Mundial, à espera da paz e do tão necessário programa habitacional prometido para o período seguinte. Em novembro de 1918, o primeiro-ministro Lloyd George prometia quinhentas mil novas moradias. A promessa não seria cumprida, mas em Wigan, como em outras partes do país, houve uma verdadeira revolução na construção de casas municipais entre as duas guerras. A viagem de George Orwell até o cais de Wigan, em 1936, levou-o a formular algumas opiniões tipicamente contundentes sobre os conjuntos municipais desse período. Vamos examiná-las nesta publicação, ao lado da história mais ampla do programa habitacional de Wigan depois de 1919.

Wigan começou a planejar cedo. No fim de 1917, o conselho discutia possíveis terrenos para novas casas municipais nas regiões de Whelley e Richmond Hill. Em março de 1918, o chefe administrativo do município apresentou ao Comitê de Habitação e Casas Insalubres as propostas mais recentes do Conselho de Governo Local. Em abril, o município comprou quinze acres de terreno para moradias em Bottling Wood, perto de Whelley. Foram elaborados planos para construir 158 casas, a uma densidade de aproximadamente doze por acre. O comitê pretendia erguer “quinhentas casas imediatamente após o fim da guerra” e decidiu que “outros projetos seriam preparados assim que surgissem oportunidades”.

A Lei de Habitação de 1919 recebeu a sanção real em julho. Além de prometer generoso apoio financeiro do Tesouro e manter os elevados padrões estabelecidos pelo Relatório Tudor Walters para as moradias operárias do pós-guerra — incluindo a densidade de doze casas por acre já adotada por Wigan —, a lei exigia que todas as autoridades locais pesquisassem as necessidades habitacionais de seus distritos. Wigan contratou doze inspetores temporários, cujo trabalho revelou 1.781 casas ocupadas por mais de uma família, 202 residências construídas costas com costas, sem fachada posterior, e outras 1.375 sem ventilação cruzada. Havia 8.266 latrinas e sanitários de balde no município, que precisavam, nas palavras secas do responsável pela saúde pública, ser “convertidos para o sistema de descarga por água”.

O engenheiro municipal concluiu que eram necessárias 2.500 novas casas: 1.500 residências menores do “Tipo A”, com três quartos, 750 casas maiores do “Tipo B”, também com três quartos, e 250 do “Tipo B4”, com quatro quartos. Talvez mereça atenção o fato de Wigan, presumivelmente por economia, ter dispensado as casas maiores com uma sala de visitas adicional, preferidas pelo Relatório Tudor Walters.

Essas aspirações encontraram vários obstáculos. Um deles foi o efeito da inflação durante a guerra e no pós-guerra: apesar da economia buscada por Wigan, as novas moradias custavam três vezes mais para construir do que suas equivalentes anteriores à guerra. O menor preço oferecido por empreiteiros para uma casa de Classe A foi de 905 libras — e, suspeitosamente, dez das treze propostas apresentavam exatamente o mesmo valor, sugerindo a existência daquilo que se chamava na época de “anel de construtores”, uma forma de cartel. O novo Ministério da Saúde e da Habitação, encarregado de aprovar empréstimos e projetos municipais, considerou os preços excessivos. Foram aceitos valores ligeiramente menores apresentados pela Manchester Building Guild.

O censo de 1921 registrou 12.869 trabalhadores das minas em Wigan, quase 37% da população economicamente ativa. Outro ponto de disputa, característico de Wigan e de outros distritos mineradores, dizia respeito ao desenho das novas moradias. Antes de haver banheiros nas minas, os trabalhadores precisavam se lavar em casa depois do expediente. Wigan, juntamente com outros conselhos das regiões carboníferas e os sindicatos, defendia banheiros no térreo para impedir que a poeira do carvão e a sujeira fossem espalhadas pela casa inteira. O município também pediu tetos de nove pés, ou 2,7 metros, de altura, para enfrentar a condensação causada pelo uso de grandes quantidades de água quente nas lavagens. Diante das circunstâncias especiais, o ministério aceitou um meio-termo de oito pés e seis polegadas.

Apesar dessas negociações bastante tensas, não está claro se as concessões foram aplicadas ao primeiro conjunto municipal de Wigan no pós-guerra, em Beech Hill, organizado em torno de Thicknesse Avenue e Guildford Crescent, onde os banheiros ficavam no andar superior. Até dezembro de 1922, 135 casas estavam concluídas. Wigan queria construir mais — havia planos para 160 casas em Pemberton e 106 no terreno de Bottling Wood —, mas as condições generosas da Lei de Habitação de 1919 haviam sido retiradas em agosto de 1921, em consequência de cortes nos gastos públicos.

As casas de Beech Hill e Bottling Wood

Wigan enviou uma delegação ao ministério para defender a manutenção dos subsídios e das obras, investimento que, segundo o Comitê de Habitação, “economizaria dinheiro ao prevenir doenças e condições insalubres e ajudaria a preservar a vida e a moral da população”. No fim, o município recebeu autorização para construir outras cinquenta casas nos termos da lei de 1919.

Em 1936, George Orwell encontrou Jerry Keenan, presidente do Conselho Sindical e do Partido Trabalhista de Wigan, na casa municipal deste, no número 51 de Rose Avenue, Beech Hill. Keenan ajudaria Orwell a encontrar a hospedagem mais barata que procurava para sua pesquisa. Vale reproduzir em detalhe a descrição da casa, tomada como típica do conjunto, publicada em O Caminho para Wigan Pier:

“Térreo: sala de estar grande, com fogão embutido de superfície fechada, armários e aparador fixo, piso de composição. Pequeno hall, cozinha relativamente grande. Fogão elétrico moderno, alugado da administração municipal por um valor praticamente igual ao de um fogão a gás. Andar superior: dois quartos relativamente grandes, outro minúsculo — adequado apenas para depósito ou quarto provisório. Banheiro e vaso sanitário, com água quente e fria.”

Orwell considerou as casas “bem construídas e... bastante agradáveis de olhar”, e o conjunto, como um todo, “bem cuidado”. Observou as regras e restrições impostas pelo município e as elevadas expectativas quanto à conduta dos inquilinos, mas concluiu que Keenan estava “muito satisfeito com a casa e orgulhoso dela” e que a administração era “boa quando se tratava de reparos”.

Seu relato parece captar bem tanto a forma quanto a qualidade dessas primeiras moradias do período entre guerras e, em certa medida, a respeitabilidade de seus moradores. Orwell observa que se tratava de uma família relativamente pequena de quatro pessoas, pais e dois filhos, cujo “marido tinha um bom emprego”.

Embora o primeiro programa municipal de construção do pós-guerra tivesse sido cancelado, a necessidade de mais moradias e de casas melhores continuava urgente. Os relatórios anuais do responsável pela saúde pública de Wigan expunham o problema em termos dolorosos, descrevendo, por exemplo, uma casa de dois quartos ocupada por três famílias. Dois adultos e quatro crianças viviam e dormiam num único cômodo; uma quinta criança nasceu e morreu aos cinco meses.

A Lei de Habitação de 1923, de Neville Chamberlain, procurara estimular a construção privada. Nenhuma casa municipal foi construída em Wigan com base nela, e a necessidade de intervenção estatal direta permanecia. A eleição do primeiro governo trabalhista, minoritário, em 1924, e a lei habitacional aprovada naquele ano deram novo impulso à construção municipal. Em Wigan, o retorno de um conselho de maioria trabalhista, em novembro, aumentou ainda mais a disposição de construir.

Havia também pressão local para que o município executasse diretamente as obras. Talvez refletindo a força crescente do Partido Trabalhista, além de seu próprio julgamento profissional e interesses, o engenheiro municipal já defendera em 1923 a criação de um departamento de obras diretas, argumentando que “nenhum concorrente privado estava em condições de executar o trabalho melhor do que a própria administração municipal”.

Uma placa nos números 2 a 4 da Chestnut Road, hoje um tanto difícil de ler, comemora oficialmente “a inauguração do primeiro empreendimento de mão de obra direta da administração municipal, em 6 de outubro de 1926”: um conjunto de 98 casas em Bottling Wood. Curiosamente, a proposta apresentada pelo engenheiro municipal ficou cerca de 5.200 libras acima da oferta privada mais barata.

Podemos voltar a Orwell e lembrar que escrevia dez anos depois da conclusão das casas, ao examinar o conjunto de Bottling Wood, que chamou equivocadamente de Welly Estate, em vez de Whelley. Ele começa com uma descrição neutra:

“Sala de estar de quatorze por dez pés, cozinha bem menor, despensa minúscula sob a escada, banheiro pequeno, mas razoavelmente bom. Fogão a gás, iluminação elétrica. Sanitário externo. Andar superior: um quarto de doze por dez pés, com lareira pequena; outro do mesmo tamanho, sem lareira; outro de sete por seis pés. O quarto principal tem um pequeno guarda-roupa embutido na parede.”

Mas ele passa então a registrar a insatisfação dos moradores:

“As queixas são: ‘A casa é fria, tem correntes de ar e umidade. A lareira da sala não aquece e deixa o ambiente muito empoeirado — atribuímos isso ao fato de estar instalada muito baixo. A lareira do quarto principal é pequena demais para servir para qualquer coisa. As paredes do andar de cima estão rachando. Como o quarto minúsculo é inútil, cinco pessoas dormem num quarto e uma, o filho mais velho, no outro.’”

Não é, de modo algum, um endosso entusiasmado à habitação municipal ou às obras executadas diretamente, e há muito a examinar. Naturalmente, devemos levar a sério as críticas ao projeto e à construção. Elas refletem, pelo menos em parte, a redução dos padrões de espaço e de execução desde as grandes ambições — e os generosos gastos — dos primeiros anos do pós-guerra. Podem também revelar defeitos específicos daquela casa. Mas contam ainda, em meados dos anos 1930, uma história maior sobre a habitação municipal e a classe trabalhadora de Wigan.

Orwell registra que naquela casa viviam “seis pessoas: os pais e quatro filhos, o mais velho com dezenove anos, a filha mais velha com vinte e dois. Ninguém trabalhava, exceto o filho mais velho”. Suas anotações de pesquisa indicam que “quase todas as pessoas que vivem nesse conjunto estão desempregadas”. Em plena Grande Depressão, Orwell calculava que mais de um terço da população de Wigan dependia do auxílio-desemprego, cerca de trinta mil pessoas. Disseram-lhe que havia um “núcleo permanente” de aproximadamente 4.500 mineiros desempregados havia sete anos.

A construção municipal durante a Grande Depressão

Esse era o contexto dos esforços contínuos de Wigan para construir moradias municipais. O município havia construído 832 casas entre 1924 e 1932, mas as condições habitacionais permaneciam terríveis, com uma em cada 47 casas considerada imprópria para habitação. Em escala nacional, em consequência da Lei de Habitação trabalhista de 1930 e da legislação posterior do governo de coalizão “nacional”, renovou-se o impulso de demolir cortiços e destinar as moradias municipais — antes mais acessíveis aos trabalhadores em melhor situação — ao realojamento de famílias removidas dessas áreas.

Em 1931, o conselho adotou um programa de cinco anos para construir 1.168 casas municipais, necessárias “para pessoas desalojadas de áreas de demolição, áreas de melhoria e casas individuais impróprias, e para oferecer acomodação a pessoas que vivem em quartos alugados”. No ano seguinte, começaram as obras de 328 casas em Worsley Hall, Pemberton. Até 1939, outras 1.283 moradias municipais haviam sido construídas no município.

Quanto às demolições, relatou-se em 1938 que 1.480 habitações, onde moravam mais de 5.600 pessoas, haviam sido derrubadas e mais de mil famílias tinham sido realojadas nos conjuntos Worsley Hall e Beech Hill. Os esforços continuaram: em 1939, outras 320 casas insalubres foram demolidas. O guia municipal previa que “para atender aos programas de demolição seriam necessárias mais 390 casas e, para reduzir a superlotação, outras duzentas”. A eclosão da guerra, em setembro de 1939, acabaria com essas expectativas.

Naturalmente, havia quem não enxergasse as novas casas municipais, particularmente aquelas situadas nos grandes conjuntos periféricos, como um progresso incontestável. Voltemos a Orwell. Ao comentar novamente a casa de Bottling Wood, escreveu:

“O inquilino se queixava de que a casa era fria, úmida e assim por diante. Talvez tivesse sido mal construída, mas é igualmente provável que exagerasse. Ele viera de um casebre imundo no centro de Wigan que eu, por acaso, havia inspecionado antes; enquanto estava lá, fizera todo o possível para conseguir uma casa municipal e, mal se instalou nela, já queria voltar ao cortiço.”

Orwell reconhecia as particularidades daquele inquilino, mas continuava crítico dos conjuntos maiores do período entre guerras:

“Em muitos casos, talvez em metade deles, descobri que as pessoas que moram em casas municipais não gostam realmente delas. Ficam felizes por sair do mau cheiro dos cortiços, sabem que é melhor para as crianças ter espaço para brincar, mas não se sentem verdadeiramente em casa. As exceções costumam ser pessoas com bons empregos, que podem gastar um pouco mais com combustível, móveis e deslocamentos e que, de qualquer modo, são de um tipo ‘superior’. Os outros, os moradores típicos dos cortiços, sentem falta do calor abafado e desleixado do cortiço.”

O leitor pode interpretar isso por conta própria. A meu ver, o relato reflete falhas amplamente observadas e legitimamente criticadas em muitos dos novos conjuntos: viver neles custava mais caro, faltavam equipamentos e boas ligações de transporte, sobretudo nos primeiros anos. Frequentemente ficavam longe dos antigos lugares de convivência e dos empregos que permaneciam nas áreas centrais. Vimos em outros casos, como no Watling Estate, em Londres, que uma parcela significativa dos moradores voltou, por diversos motivos, aos aluguéis privados do centro. Orwell pessoalmente considerava que alguns desses conjuntos fora da cidade, “empoleirados em encostas argilosas sem árvores e varridos por ventos gelados, seriam lugares horríveis para morar”.

Mas, embora Orwell tivesse razão ao dizer que a parcela mais próspera da classe trabalhadora se adaptava mais facilmente aos novos conjuntos, suas palavras também contêm certa condescendência de classe média com aqueles que chamava de “moradores típicos dos cortiços” e uma romantização implícita da vida nessas habitações. Nisso, antecipava comentaristas influentes do pós-guerra, como Michael Young e Peter Willmott, que criticavam duramente os novos conjuntos do Conselho do Condado de Londres fora da cidade e falavam, de maneira discutível, da “aglomeração sociável” do antigo East End londrino.

No fim, Orwell era perspicaz demais para se entregar inteiramente à nostalgia:

“Depois de tudo o que se possa dizer, o mais importante é que as pessoas morem em casas dignas, não em chiqueiros. Vi cortiços demais para ficar arrebatado por eles à maneira de Chesterton. Um lugar onde as crianças possam respirar ar puro, as mulheres tenham algumas comodidades que as poupem do trabalho exaustivo e o homem disponha de um pedaço de jardim para cultivar deve ser melhor do que as ruas fedorentas dos fundos de Leeds e Sheffield. No balanço geral, os conjuntos municipais são melhores do que os cortiços; mas por uma margem pequena.”

Ainda assim, a impressão é que esses novos conjuntos recebiam elogios excessivamente tímidos. Acredito que podemos ser muito mais positivos em relação às moradias do período entre guerras. Alguns, como os de Wigan, nasceram em circunstâncias difíceis; todos precisaram de tempo para desenvolver infraestrutura e relações de vizinhança. A maioria, apesar dos problemas iniciais, transformou-se em comunidades estáveis e mais prósperas.

Mas os sucessos e fracassos percebidos nesses empreendimentos, ao lado da ambição renovada de eliminar os cortiços e oferecer moradia digna a todos, influenciaram a forma e a escala do enorme programa habitacional iniciado depois de 1945 em Wigan e em outros lugares. Esse será o assunto da publicação da próxima semana.